A casa vazia, agora revelava um segredo. Revelava-me que eu tive na vida muito mais do que ambicionara. A mobília se fora, o marido também e eu havia ficado para encerrar mais uma fase da minha história. Enquanto as crianças cumpriam com as obrigações finais nas escolas delas, eu aproveitava para sugar toda beleza, que por achar que teria muito tempo para isso, fui sempre deixando pra mais tarde. E quem diria: com medo de nunca mais sentir a nostalgia ao ver um floco de neve caindo, ansiava pela primeira nevasca do inverno que havia acabado de chegar. E foi nessa primeira nevasca, que internalizei para sempre em mim, a imagem, a sensação e o valor que se deve dar a algo que não faz parte do seu meio, mas que por acaso você teve a chance de conhecer.
Era cedo da noite e nevava muito. Triste pela despedida do Rô, pela saudade que já me afetava e pela solidão do momento liguei pra Susane sem conseguir conter o choro. Susane! lembram da figura? Aquela que aqui falo dela. Pois é, em poucos minutos ela estava na porta da minha casa me convidando para dar um passeio de carro. Guiada pela emoção e pela claridade da brancura da neve que caia, não resisti aquele convite. Entramos por umas estradinhas descampadas que só ela mesma conhecia. Como eu pouco falava, ela ligou o som do carro e, eis que surge mais uma música, uma dessas que são capazes de transformar os pequenos momentos da vida em grandes momentos de reflexão que ajudam a manter vivas as lembranças de uma memória. Esta música. Ah, esta música que já invadiu a intimidade dos pensamentos de tanta gente.
Susane sugeriu que não disséssemos nada. Apenas observássemos a paisagem e ouvíssemos a música pensando em tudo de bom que nos havia acontecido naquele país. A música me fazia sentir uma paz universal, mas que pertencia só a mim. A neve que caia à minha frente afirmava ironicamente que no fundo, eu era simplesmente apaixonada por ela. A beleza daquela paisagem isolada me dava a certeza de que fui muito feliz naquele lugar. E enquanto percorríamos aquela estrada sem pressa e sem destino, o meu ego inchava pelo privilégio de pertencer a uma pessoa abençoada. Eu amei e fui amada, aceitei e fui aceita, ri, chorei, falhei, deprimi, levantei, viajei e conheci pessoas que entraram na minha vida de tal forma, que seria impossível qualquer coisa que se julgue mais forte que o amor, querer retirá-las do meu coração. As minhas amigas Leia, Beth, Lia, Anne, Suse, Ivoni, Márcia, Nad, Simone, enfim, todas que lá conheci, são pessoas que amo e que representam em mim a força e a bondade. A elas, toda minha gratidão pelo carinho e a amizade que a mim sempre dedicaram. As lágrimas caiam "masoquistamente", enquanto eu pensava em cada uma delas e na falta que iriam me fazer.
Fechei a casa, entreguei as chaves, peguei minhas meninas e fui levada por amigos para o aeroporto. Foi impossível seguir o velho conselho que manda não olhar para trás quando se estiver virando uma página. Desobedeci e olhava para trás, para os lados, para frente... olhava para não esquecer tudo aquilo que pela importância que teve pra mim, hoje consigo descrever cada imagem que ficou registrada na minha memória e no coração. Como por exemplo, sentir o chão tremer enquanto eu me amparava no abraço dos amigos que me aguardavam na ala de embarque. E como se esquecer do pai de um amigo da Michelly que encheu uma "Van" de coleguinhas da escola e foram se despedir dela no aeroporto? Também nunca vou esquecer ter ouvido meu nome soar por todo aeroporto me avisando que era a última chamada para o embarque. E enquanto mais de trezentos passageiros me esperavam para decolar, eu sentia uma dificuldade enorme de me desgarrar daquela despedida. Fui à última a entrar no avião. Pelo meu choro incontrolável, todos foram solidários e não vi ninguém com olhar de protesto. O medo da decolagem que sempre tive deu lugar a uma mistura de sentimento que me fazia triste por estar indo embora, mas feliz por estar voltando para a minha casa e para minha gente. A sensação plena de que tudo valeu à pena, me enchia de força para o recomeço no Brasil e a partir dali, fazer o máximo para que nossa vida ficasse cada vez mais completa.





















