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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

ANTES DE PARTIR JÁ SENTIA SAUDADES DE TI - CAPITULO 82

A casa vazia, agora revelava um segredo. Revelava-me que eu tive na vida muito mais do que ambicionara. A mobília se fora, o marido também e eu havia ficado para encerrar mais uma fase da minha história. Enquanto as crianças cumpriam com as obrigações finais nas escolas delas, eu aproveitava para sugar toda beleza, que por achar que teria muito tempo para isso, fui sempre deixando pra mais tarde. E quem diria: com medo de nunca mais sentir a nostalgia ao ver um floco de neve caindo, ansiava pela primeira nevasca do inverno que havia acabado de chegar. E foi nessa primeira nevasca, que internalizei para sempre em mim, a imagem, a sensação e o valor que se deve dar a algo que não faz parte do seu meio, mas que por acaso você teve a chance de conhecer.

Era cedo da noite e nevava muito. Triste pela despedida do Rô, pela saudade que já me afetava e pela solidão do momento liguei pra Susane sem conseguir conter o choro. Susane! lembram da figura? Aquela que aqui falo dela. Pois é, em poucos minutos ela estava na porta da minha casa me convidando para dar um passeio de carro. Guiada pela emoção e pela claridade da brancura da neve que caia, não resisti aquele convite. Entramos por umas estradinhas descampadas que só ela mesma conhecia. Como eu pouco falava, ela ligou o som do carro e, eis que surge mais uma música, uma dessas que são capazes de transformar os pequenos momentos da vida em grandes momentos de reflexão que ajudam a manter vivas as lembranças de uma memória. Esta música. Ah, esta música que já invadiu a intimidade dos pensamentos de tanta gente.

Susane sugeriu que não disséssemos nada. Apenas observássemos a paisagem e ouvíssemos a música pensando em tudo de bom que nos havia acontecido naquele país. A música me fazia sentir uma paz universal, mas que pertencia só a mim. A neve que caia à minha frente afirmava ironicamente que no fundo, eu era simplesmente apaixonada por ela. A beleza daquela paisagem isolada me dava a certeza de que fui muito feliz naquele lugar. E enquanto percorríamos aquela estrada sem pressa e sem destino, o meu ego inchava pelo privilégio de pertencer a uma pessoa abençoada. Eu amei e fui amada, aceitei e fui aceita, ri, chorei, falhei, deprimi, levantei, viajei e conheci pessoas que entraram na minha vida de tal forma, que seria impossível qualquer coisa que se julgue mais forte que o amor, querer retirá-las do meu coração. As minhas amigas Leia, Beth, Lia, Anne, Suse, Ivoni, Márcia, Nad, Simone, enfim, todas que lá conheci, são pessoas que amo e que representam em mim a força e a bondade. A elas, toda minha gratidão pelo carinho e a amizade que a mim sempre dedicaram.  As lágrimas caiam "masoquistamente", enquanto eu pensava em cada uma delas e na falta que iriam me fazer.

Fechei a casa, entreguei as chaves, peguei minhas meninas e fui levada por amigos para o aeroporto. Foi impossível seguir o velho conselho que manda não olhar para trás quando se estiver virando uma página. Desobedeci e olhava para trás, para os lados, para frente...  olhava para não esquecer tudo aquilo que pela importância que teve pra mim, hoje consigo descrever cada imagem que ficou registrada na minha memória e no coração. Como por exemplo, sentir o chão tremer enquanto eu me amparava no abraço dos amigos que me aguardavam na ala de embarque. E como se esquecer do pai de um amigo da Michelly que encheu uma "Van" de coleguinhas da escola e foram se despedir dela no aeroporto? Também nunca vou esquecer ter ouvido meu nome soar por todo aeroporto me avisando que era a última chamada para o embarque. E enquanto mais de trezentos passageiros me esperavam para decolar, eu sentia uma dificuldade enorme de me desgarrar daquela despedida. Fui à última a entrar no avião. Pelo meu choro incontrolável, todos foram solidários e não vi ninguém com olhar de protesto. O medo da decolagem que sempre tive deu lugar a uma mistura de sentimento que me fazia triste por estar indo embora, mas feliz por estar voltando para  a minha casa e para minha gente. A sensação plena de que tudo valeu à pena, me enchia de força para o recomeço  no Brasil e a partir dali, fazer o máximo para que nossa vida ficasse cada vez mais completa.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

NÃO VOLTE COM A SENSAÇÃO DE QUE NÃO FOI - CAPITULO 81

Eram umas nove da noite quando o telefone tocou. Marido atendeu. Notei que era do Brasil. Depois de alguns minutos de conversa percebi que ele estava monossilábico e tinha a expressão perdida no ar. Senti o sangue gelar. Pra quem mora do lado de cá do oceano o toque do telefone serve também como um alerta: "esteja preparado, pode ser que você não chegue a tempo para o último adeus." Ou coisa parecida. Acontece  com muita gente e comigo também aconteceu. Certa noite do ano de 99, me ligaram avisando que haviam matado o meu irmão de 21 anos, com dois tiros nas costas e por causa da distância, não dava tempo eu chegar pra me despedir dele. A dor do luto se mistura com a dor da impotência de não poder fazer nada, e te resta ficar ali sofrendo pelas duas coisas ao mesmo tempo.

Felizmente não era uma dessas notícias, era apenas um telefonema avisando que dentro de alguns meses teríamos que voltar para o Brasil. O nosso tempo teve de ser interrompido por motivos que a própria razão desconhece. Ignorar o choque daquele toque de recolher era o mesmo que ignorar o êxtase que foi ao saber, que passaríamos cinco anos na Alemanha. Impossível ignorar tanto um quanto ao outro.

Depois do telefonema o Rô me olhou e disse: temos que ir embora. Uma nuvem de lágrimas embaçou os meus olhos e não pude conter. Nos abraçamos e choramos por um bom tempo no sofá confortável da nossa sala. A vida de expatriado não permite demora, sabemos. Mas a antecipação de três anos nos pegou de surpresa. E logo agora que nos julgávamos bem acomodados, adaptados e prontos pra finalmente levar uma vida normal. E quem fez isso? Você deve estar se perguntando. Alguém induzido pelo poder, mas que nunca esteve vestido na pele de quem larga tudo para trás para desembarcar num mundo totalmente desconhecido com a promessa que você terá o tempo necessário para o começo, o meio e o fim dessa nova vida. O começo foi difícil, o meio nos tirara, e o fim era melhor não considerar. Apenas marcaríamos aquele tempo vivido como modelo para tudo que vivêssemos dali em diante. Ficamos por algum tempo com sentimento de indignação, mas a leveza da consciência limpa, pelo motivo da volta não ter sido trabalho mal sucedido, fez com que maridinho logo se erguesse com orgulho do dever cumprido.

Final de julho de 2000. Até novembro ele já tinha que se apresentar no Brasil. Combinamos que eu ficaria com as crianças até dezembro esperando terminar o semestre. Como por aqui o fim do ano letivo é em junho, queríamos que elas terminassem o ano, para que não se prejudicassem tanto. E assim foi feito. A correria dele pra deixar tudo pronto pra mim foi grande. A oportunidade nos ajudou a não se esquecer de comprarmos alguns itens que valiam a pena levar na mudança. Os amigos nos enchiam de mimos com jantares e almoços de despedida. Me desfazer de algumas coisas, como a casa, os carros e principalmente do meu "bixoxó", meu carro pra quem não sabe, não me doía mais do que me desfazer daqueles dias de verão que nos saudavam deixando marcas que ficarão para sempre na minha memória. 

É amor, que mistura de emoção e recordação que passam agora pela minha cabeça, enquanto descrevo esses dias. E nem a música mais ouvida "bright sunschiny day", que marcou nossos passeios pelas cidades, vales e montanhas da europa deixou de surgir na minha mente. Aliás, até hoje quando ela toca, fingindo que é por acaso, basta nos olharmos pra saber do que estamos lembrando. E pensando num post da Elaine que nos induz a perguntar: se eu parasse de escrever o blog hoje, qual a última imagem que eu gostaria de deixar nele? Se por algum motivo, esse fosse o meu último capítulo, então meu amor, eu te deixaria essa música acompanhado dessas imagens que marcaram os momentos mais controversos de nossas vidas. E foi essa música que coloquei pra ouvir no carro quando te deixei no aeroporto de Frankfurt de volta para o Brasil e voltei para nossa casa vazia, me afogando em lágrimas.


                                       O beijo do seu primeiro aniversário com as duas.
A viagem pela áustria sem nunca imaginar que um dia moraríamos aqui.
...pelas montanhas...
pelas cidades...
pela neve...
pelo paraíso
 
pelos vales...
e campos...
 
 A depedida do companheiro de estrada
e dos amigos de verdade.
O começo, o meio e fim de uma jornada quem faz é a gente. Não importa o tempo que você tem pra isso.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

A FACILIDADE E A OPORTUNIDADE - CAPITULO 80

Caminhando para o segundo ano morando na terra do "chucrute" todos nós estávamos bastante adaptados. Ingrid livre das dificuldades da escola entrava numa adolescência linda e tranquila. Rô não conta. Esse já chegou adaptado. Eu com meu grupo inseparável, nada mais me abalava só fortalecia. Michelly tinha uma legião de amiguinhos, mas somente um ficou marcado para toda vida. O Christian. Sabe aquela amizade que nasce da principal veia do coração? Pois é, Christian e Michelly estudavam na mesma escola e moravam na mesma rua. Eram tão diferentes e tão completos que para eles a vida só fazia sentido se os dois estivessem juntinhos. Era a coisa mais bonitinha. Ele como um bom alemão era pura razão e ela, pura emoção.  Foi ele que a ensinou a andar de bicicleta, a falar melhor o alemão e aproveitar intensamente todas as estações do ano. Aprenderam juntos que uma amizade assim pode ser eterna, independente de quantas vezes o mundo gira afastando as pessoas que tanto queremos bem. E seguindo o giro do mundo, eles se encontram até hoje.

Embora eu jurasse ao contrário, eu não queria mais tão cedo deixar aquele país e nem aqueles amigos que para não me ver chorar no inverno, aguardavam comigo o frio, os dias cinzentos, e a neve previsível, brindando a vida num cálice de vinho.  Já sofria só de pensar que nos restavam praticamente mais só três anos, dos cinco que nos presentearam. E agora com a família se sentindo em casa, maridinho se inundava de felicidade e com isso, a produção no seu trabalho ia muito além daquilo que lhe foi encaminhado, causando incômodo a quem não se sobresaia.

A Facilidade e a Oportunidade nos convidavam insistidamente a conhecer cada vez mais um pouco do mundo desse lado de cá. Gratos abocanhávamos todos os privilégios que o momento nos proporcionava. Pisar num pedaço de chão desse mundo desconhecido era como se... eu realizasse um sonho, mesmo antes dele ser sonhado. Falei em algum capítulo atrás, que quando criança, não fui apresentada a João e Maria das histórias infantis e nem ao país das maravilhas. Meus pais não conheciam as histórias desses personagens,  mas, de tanto ler e ouvir conheciam muito bem João e Maria das histórias bíblicas e os países cenários dessas histórias, que eles tanto falavam como se conhecessem: Jerusalém, Belém, Grécia, Egito e outros. Cresci ouvindo falar desses lugares que me fascinavam e também despertavam a dúvida se eles realmente existiam ou somente faziam parte da imaginação de quem sabia contar uma bela história. E para tirar essa dúvida aceitamos o convite da Facilidade e agarramos a Oportunidade para nos levar primeiro ao Egito. E depois, já aqui em Viena, outros. Infelizmente, a "Era" não era da digital e não tenho fotos boas para ilustrar a nossa viagem a bordo de um magnífico cruzeiro feito pelo Rio Nilo.


Falar da emoção e do privilégio de conhecer o lugar de suas histórias de infância pode soar antipático para uns, mas digo, enquanto o guia contava o que ali aconteceu, eu me perguntava: mereço Deus, estar aqui? Ah, merece! Ouvia a voz do coração. Depois dessa viagem, a Oportunidade também nos levou a outros lugares dos quais nunca tinha ouvido falar na minha infância, mas, por bondade da Facilidade vieram fazer parte da minha caminhada:
                                                                   Dinamarca
Palma de Maiorca
Luxemburg

Grécia
Praga
Londres
Enfim, esses foram os lugares que a Oportunidade, a Facilidade e principalmente o meu maridinho me levaram para desfrutar naquele segundo ano que estávamos na Alemanha. Não sei como teria seguido as nossas vidas se a nossa estadia por lá, não tivesse tido um fim precoce, mas sei que, quem colaborou para essa precocidade não se beneficiou com a nossa volta para o Brasil. Nem de longe pôde imaginar que para nós foi o melhor que poderia ter acontecido. Mas isso é um assunto para um outro capítulo.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

ENTRE O GOSTO E DESGOSTO - CAPITULO 79

Não é estranho? Família é algo mais sagrado do que imaginamos. Há nela algo forte que ultrapassa a simples necessidade de almoçar e jantar junto. Esse sangue que une os membros de uma família e que esfria completamente na hora das desavenças, é capaz de ferver ao entrar em contato com a ameaça de viver distante desse ciclo vital.

Estranho também é estranhar certas coisas com as quais você nasceu, cresceu, reproduziu e pretende morrer fazendo parte delas. Depois da euforia de estar de volta ao Brasil comecei a não gostar de certos reencontros. O reencontro, por exemplo, dos nossos "outdoors" causando poluição visual até nos cegos, me incomodou logo de cara. Como que antes de morar fora, mesmo eu não sendo cega, não enxergava nada daquilo? Antes também, não me tocava tanto ao ponto de ficar melancólica, ver tantas crianças desprovidas de dignidade, soltas nas ruas se arriscando e nos arriscando à vida. Esse reencontro foi um dos piores que senti.  Tive uma triste impressão que o Brasil havia dado uma parada. Nada evoluiu em um ano. Pudera! Ou será que por eu estar vivendo num lugar muito evoluído, desejei evolução para o meu povo em tempo record?!

Não sei. Só sei que fiquei dividida entre o gosto e o desgosto. O desgosto por causa dessa ausência de qualquer perspectiva de melhorias para as nossas necessidades básicas. E o gosto por sentir que só no meu país mesmo pra ter esse sol constante, que faz das nossas frutas as melhores, a comida mais saborosa, as praias mais belas, a paisagem mais tropical, as raças mais misturadas, essa gente mais diferente de alegria espontânea, que jamais perde a esperança de que dias melhores virão.

Com essa esperança embarquei de volta ao meu lar brasileiro situado em outro país. Foram dias muito prazerosos. Em todos os sentidos. Voltei com mais vontade de aproveitar melhor ainda as oportunidades que o meu destino estava me dando e amando mais ainda a pessoa que trabalhava muito, para que a minha vida tivesse aquele conforto. Meu maridinho, que ao estrear na minha vida foi recebido com espontaneidade e a certeza de que eu nunca deixaria a pureza dos nossos sentimentos se acabar com os altos e baixos de uma vida a quatro.



sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

VOLTAR É ESSENCIAL - CAPITULO 78

O frio havia chegado novamente. As nuvens trocavam o céu pela terra fazendo os dias ficarem mais curtos e escuros. Tive que ser muito forte pra vencer tanto a ele quanto a depressão. Com muita compreensão do marido, a vontade de ser aceita das crianças e afeição dos amigos, aos poucos minha vida foi voltando ao normal. Quanto ao frio, eu dizia todo dia: você me afeta, me aborrece, me tira o prazer de sair na rua, me rouba a luz, mas não pode me roubar toda essa energia boa que me envolve. E com esse pensamento positivo foi mais fácil atravessar aquele inverno chantagista.

Não se falavam em outra coisa. A virada do ano de 99 para o ano 2000 era um assunto internacional. O que iria acontecer neste ano? Muitos acreditavam que o mundo iria se acabar, mas caso ele não se acabasse, nós iríamos passar a páscoa no Brasil. A expectativa de passarmos as férias de páscoa no Brasil, fazia com que a minha alegria natural florescesse tão rápida e tão desejada, quanto a chegada daquela primavera. Era a primeira vez depois de um ano, que voltávamos ao Brasil. E voltar é essencial.

Comecei a preencher os meus dias fazendo tudo para que aquelas férias fossem inesquecíveis. Como tudo em minha vida. Comprei presentes para os parentes e aderentes, separei fotos dos melhores momentos do ano que se passou, relembrei detalhes importantes para contar aos meus pais, aticei o patriotismo nas crianças para que elas sentissem na pele o orgulho de ser brasileiras, enfim... Eu estava que parecia que uma sinfonia maravilhosa entoava ao meu redor, afirmando que essas pequenas coisas, fazem a vida ser melhor.

Então, depois de tudo pronto a viagem começou. De Frankfurt a São Paulo, uma eternidade. O medo daquele "boeing" atravessando o oceano e ansiedade de pisar em terra firme, não me deixaram dormir durante o voou. As crianças matavam a saudade do guaraná, do suco de goiaba e de maracujá. Eu, do café, do pão de queijo, da língua portuguesa e do povo brasileiro, que ali com eles no saguão do aeroporto de São Paulo, já me sentia totalmente em casa. Pegamos outro voou para Brasília e depois de ter viajado 12 horas por céu inconstante, ora tranquilo ora tempestuoso, eis que avisto o céu da minha Brasília irradiando uma luz tão especial, que senti aquilo como uma mensagem para nos receber. Maridinho e as crianças talvez não sentissem nada disso, mas em mim foi tão real que a  ansiedade cedeu lugar à emoção e não pude conter as lágrimas ao pousar no solo da minha casa.

Enquanto pegava as malas ouvi gritos de família, senti cheiro de pátria, captava o amor no ar, e no conforto do abraço do meu povo chorei de alegria por estar ali com eles. Mas a viagem ainda não havia terminado, dias depois ainda fomos ao sul e ao norte abraçar tudo aquilo e todos aqueles que tanto nos fizeram falta. Meus pais nem acreditavam que eu estava vindo do outro lado do mundo para chegar ao Arame, o fim do mundo, somente pra receber aquele amor especial.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

DIAS DE INFERNO - CAPITULO 77

Depois da jorrada de emoção, Amsterdam perdeu o encanto. Eu não quis mais ficar por lá. Maridinho entendeu e voltamos para casa. Viajei por muito tempo no banco detrás para poder ficar agarradinha com a Michelly e de vez enquando, eu chorava baixinho ainda sob o efeito do medo de ter perdido minha filha. Ao chegar em casa notei que não sentia muita vontade de conversar. Com o tempo comecei a senti muita impaciência e vontade de chorar. À beira da inconsciência fui pega por uma onda de incapacidade do meu controle emocional. E por uma sacanagem do destino a pessoa escolhida para o meu delírio pessoal foi a Ingrid. Logo ela, que encontrou a minha filha e me trouxe de volta na maior felicidade do mundo. Logo ela, que crescia sem a presença da mãe verdadeira e que procurava desesperadamente no silêncio da sua alma, um amor que lhe fosse incondicional e eu entregue ao egoísmo, sem me dar conta lhe cobrava condição para ser amada.

Até os defeitos dela, que antes me afeiçoavam e até achava engraçados, de repente, eram motivos para perder a paciência com ela. Era como se aquele cantinho do coração que eu havia reservado com amor só pra ela, tivesse se fechado. E o que me fazia afundar numa tristeza ainda maior, era o sentimento de carinho forte e explícito que eu sentia quando percebia que havia sido injustamente grossa com ela. Nessa hora o cantinho do coração reservado com amor só pra ela, se rasgava de dor, pois agindo assim, é claro que ela iria associar a minha imagem a imagem de uma (má) madrasta, o que eu jamais queria ser pra ela. Isso começou a se refletir na Michelly, pois com ela eu também não estava legal, então, logo começou a se distanciar de mim. INFERNO!


Confesso envergonhada até a quinta geração, que por muitas vezes fui fria e seca com as crianças, mas principalmente com a Ingrid. E quando me dava conta disso, me batia um arrependimento que me sufocava, mas ao invés de reparar o erro era mais fácil chorar escondida. Com certeza, ela fazia a mesma coisa e ainda guardava as minhas grosserias só pra ela. Nunca se queixou a ninguém, nem mesmo ao pai, o que me fazia sentir ainda pior. Muitas vezes liguei para minha mãe nas altas madrugadas, para que ela pudesse me dizer alguma coisa que me fizesse entender aquele comportamento cruel e avassalador que estava dentro de mim. Eu queria entender porque eu não tinha mais prazer em nada, não sentia mais a minha alegria natural e ignorava as pessoas que mais precisavam de mim naquele momento. Cheia de fé, minha mãe orava comigo ao telefone e conseguia me deixar mais calma e mais forte. Com o coração mais calmo aproveitava que todos dormiam, ia até o quarto da Ingrid. Ao vê-la dormindo tão linda, tão criança, tão desprotegida, caia novamente em pranto no pé da cama dela, jurando em voz baixa que no dia seguinte pediria desculpas pelos meus gritos e pelo meu silêncio, que na verdade, nem sei o que lhe doía mais, se o meu silêncio ou minhas agressões. Em mim doía os dois. No dia seguinte, até conseguia ser mais amorosa, mas desculpas havia sempre uma mão pesada no meu peito me impedindo de falar com ela e, por mais que eu quisesse e tentasse, não conseguia. Com o meu comportamento diante dela, era de se esperar que a onda de ciúmes tanto do pai, quanto da "irmã" voltasse ainda mais forte. Então sequei de vez com todo mundo. Por qualquer motivo passava a semana toda sem falar direito com o marido e ficava com receio de ser carinhosa com a Michelly. E em mim, só tristeza e vontade de ir embora.

INFERNO! Para quem de alguma forma, nunca conheceu o inferno é esse o cenário dele. E a depressão é quem domina esse cenário. Sem stress e sem piedade ela prova que não são somente as pessoas que vivem de pensamento negativo e baixo astral, que são levadas por ela.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

REFORMARAM A MINHA CASA VIRTUAL

Aqui comecei a minha casinha virtual bem simples, construída a pau a pique, lá no interior do maranhão. Depois, fui para Brasília  e dei uma caprichada melhor na casa, mas nada demais, pois não entendo nada de decoração virtual. Ficava até sem graça com as minhas primeiras e tão queridas amigas, que desde a casa de pau a pique, me visitam com tanto carinho:  Nilce, Luciana,  Patrícia, Kelly...

Bom, fui para Bahia e lá, a casa caiu de vez. Para não chorar, achei melhor procurar amigos nesse mundo virtual, pois o real estava querendo me enlouquecer. Me fizeram um café beneficente e nele conheci todos esses outros queridos amigos que me visitam constantemente, mesmo que eu não tenha muita coisa a lhes acrescentar. 

Sem teto voltei para Brasília. Em Brasília fiquei pulando de casa em casa, sempre na maior simplicidade. Então, depois de uma longa reviravolta na minha vida, fui parar na Alemanha. E aí sim, eu estava numa casa grande, com muitos compartimentos, mas precisava dar uma arrumada geral porque,  além daquelas visitas íntimas que eu tinha, comecei a receber mais e mais... que com amor estão fazendo parte dos capítulos dessa história, que um dia eu pretendo publicar num livro. E quero ter uma lista com o nome de todos que me visitam, na contracapa.

Visitando a Nilce tive a impressão que havia entrada na casa errada. Não reconheci nada. Só a foto dela sorrindo pra quem entra. Estava tudo tão diferente, tão organizado, com decoração nova, luzes, cores, ação de fazer inveja.
Puxei a danada pelo braço e implorei: conta danadinha, quem foi a decoradora? Ela disse: Calma! Não precisa implorar você não viu um outdoor na entrada da minha casa escrito: FEITO POR  ELAINE GASPARETO?

Voltei pra frente da casa e anotei o site da tal Elaine.  http://www.elainegaspareto.com/ Entrei na minha casa desarrumada e escrevi: "preciso de você." Ela me respondeu imediatamente. Pedir encarecidamente, que viesse organizar a minha casa também. Não gente, não é de graça. Onde já se viu decorador trabalhar de graça. De graça, nem mais injeção na testa, pois isso virou botox e botox é caro. Mas o preço dela é maravilhoso.

Sai de casa por uns dias e entreguei as chaves para Elaine confiando plenamente no seu trabalho e no seu bom gosto. Hoje ela me procurou, vendou os meus olhos e me levou até a minha nova casa. Não reconheci. Me senti uma sorteada do programa do Gugu, quando recebe a casa reformada. Adorei! Agora quem quiser conhecer todos os compartimentos do meu novo lar, é só apertar os botões do elevador, éééé... elevador, sim. Ela colocou elevador na minha casa, ta! E em frente aos botões é só apertar: capítulo 1, 2, 3, 4... e entrar para conhecer todas as etapas dessa construção. Chique, não? Ah, ta querendo também? Então corre, entra em contato com a Elaine. Além de profissional, ela é um amor!

Elaine, com carinho, muito obrigada!